Archivos de Ciencias de la Educación, nº 10, e003, 2016. ISSN 2346-8866
Universidad Nacional de La Plata. Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación.
Departamento de Ciencias de la Educación



DOSSIER / DOSSIER
Prensa educativa y pluralidad de perspectivas en los debates pedagógicos

 

A imprensa de educação e ensino: observatório da formação docente e discente(Brasil, 1950-1980)


Maria Helena Camara Bastos

Pós-graduação em Educação/Pontificia Universidad Católica de Río Grande del Sur, Brasil.
mhbastos@pucrs.br

 

Cita sugerida: Camara Bastos, María Helena (2016). A imprensa de educação e ensino: observatório da formação docente e discente(Brasil, 1950-1980). Archivos de Ciencias de la Educación, (10). Recuperado de http://www.archivosdeciencias.fahce.unlp.edu.ar/article/view/Archivose003

Resumo
O artigo analisa a imprensade educação e ensino como testemunho dos métodos e concepções pedagógicas de uma época e da ideologia moral, política e social de um grupo profissional. Abordaas iniciativas da Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul, através da publicação daRevista do Ensino (1951-1978) e da revista infanto-juvenil Cacique (1954-1963), como exemplo das finalidades educativas de um grupo de técnicos, professoras primárias, que marcaram a formação docente e discente no Estado. O estudo do lugar da imprensa no discurso social e as estratégias editoriais revelam-se ricos de informações sobre o discurso pedagógico, as práticas educacionais, o cotidiano escolar, o grau de submissão dos professores aos programas e às instruções oficiais, a ideologia oficial e do corpo docente, da força de inovação e continuidade que representa,as contradições do discurso.

Palavras-chaves: Imprensa de educação e ensino; Formação docente; Formação discente; Revistas.


Abstract
The article analyzes the education and teaching press as a testimony of the methods and pedagogical concepts of time and the moral, political and social ideology of a professional group. Discusses the initiatives of the Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul, through the publication of the Revista do Ensino (1951-1978) and children's magazine Cacique (1954-1963), as an example of the educational purposes of a group of technicians, primary school teachers, which marked the teacher training and students in the state. The study of the place of press in social discourse and editorial strategies are revealed rich information about the pedagogical discourse, educational practices, the school routine, the degree of submission of teachers to programs and official instructions, the official ideology and the teachers thought, innovation strength and continuity that is, the contradictions of speech.

Key words: Education and teaching press; Teaching training; Training of students; Magazine.


Introdução


“O passado deve ser compreendido seja nos seus
próprios termos, seja como anel de uma corrente
que, em última análise, chega até nós”.

Carlo Ginsburg (2001.p.188)


A imprensa periódica e, especialmente, a imprensa de educação e ensino1têm sido amplamente utilizadas como documento para a construção da história e da história da educação. De Luca (2005) afirma que, somente a partir de 1970, se amplia a preocupação com a escrita da História da imprensa por meio da imprensa, tomando os periódicos como objeto e sujeito da pesquisa histórica.

Esse movimento também vai ser observado na área da História da Educação, a partir dos anos 1980, decorrente de dois grandes repertórios da produção da imprensa de educação e ensino na França (Caspard, 1981-1991; Caspard-Karadys, 2000-2005) e em Portugal (Nóvoa, 1993). Para Caspard-Karadys (2000), os impressos “globalmente, refletem as ideias, as proposições, os debates, que estiveram presente na sociedade, não somente pelos problemas propriamente escolares ou pedagógicos, mas também pelos valores e os conteúdos que julgavam dever transmitir. Mais precisamente, a imprensa é fundamental para todos aqueles envolvidos na sua produção e circulação; para os vários atores, coletivos ou individuais, para os quais a educação representa uma ação significativa: o Estado, seus administradores e seus agentes; as Igrejas e todos seus dispositivos de ensino e de enquadramento da juventude; os partidos políticos; as associações, sindicatos e movimentos de todas as tendências” (p. 9). Para Nóvoa (1993), a análise dos periódicos pode “favorecer uma dinâmica de renovação conceptual e metodológica em História da Educação” (p.14). E acrescenta, “a imprensa é, provavelmente, o dispositivo que facilita um melhor conhecimento das realidades educativas, uma vez que manifestam, de um ou outro modo, o conjunto dos problemas dessa área”. Considera que é “difícil imaginar um meio mais útil para compreender as relações entre teoria e prática, entre projetos e as realidades, entre tradição e inovação” (Nóvoa, 1999, p.31).

Como documento para a escrita da história da educação e da escola, os pesquisadores têm se apoiado tanto na imprensa periódica como na de educação e ensino. Mariani (1993), ao abordar o modo como o discurso da imprensa constrói a memória, afirma que a “análise desse discurso se faz importante e necessária, já que esta, enquanto prática social, funciona em várias dimensões temporais simultaneamente: capta, transforma e divulga acontecimentos, opiniões e ideias da atualidade – ou seja, lê o presente – ao mesmo tempo que organiza um futuro – as possíveis consequências desses fatos do presente – e, assim, legitima, enquanto passado, - memória – a leitura desses mesmos fatos do presente no futuro” (p. 33).

Jornais, boletins, revistas, magazines – feitas por professores para professores, feitas para alunos por seus pares2 ou professores, feitas pelo Estado ou outras instituições como sindicatos, partidos políticos, associações de classe, Igrejas – contêm e oferecem muitas perspectivas para a compreensão da história da educação e do ensino. Sua análise possibilita avaliar a política das organizações, as preocupações sociais, os antagonismos e filiações ideológicas, além das práticas educativas e escolares (Catani; Bastos, 1997, p.7).

A imprensa de educação e ensino é um corpus documental de vastas dimensões, é um excelente observatório, uma fotografia da ideologia que preside (Ognier, 1984). Nessa perspectiva, é um guia prático do cotidiano educacional e escolar, permitindo ao pesquisador estudar o pensamento pedagógico de um determinado setor ou de um grupo social a partir da análise do discurso veiculado e da ressonância dos temas debatidos, dentro e fora do universo escolar (Catani; Bastos, 1997, p.7).

O presente artigo analisa a imprensa de educação e ensino como objeto e sujeito de pesquisa, testemunho vivo dos métodos e concepções pedagógicas de uma época e da ideologia moral, política e social de um grupo profissional. Para tal, aborda as iniciativas da Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (SEC/RS), através da publicação de dois periódicos - Revista do Ensino (1951-1978)3 e da revista infanto-juvenil Cacique (1954-1963)- como um exemplo das finalidades educativas de um grupo de técnicos, professores e professoras primárias, que marcaram a formação docente e discente no Estado.

Na década de 1950, a SEC/RS através do CPOE, utilizou amplamente a imprensa especializada - Revista do Ensino e Cacique- para expressar e concretizar a sua ação político-pedagógica, buscando atingir públicos distintos - o aluno (infanto-juvenil) e o magistério primário da rede escolar rio-grandense- mas com a mesma intenção divulgar o pensamento educacional oficial e promover a formação moral.

O estudo do lugar da imprensa periódica de educação e ensino no discurso social, as estratégias editoriais face aos fenômenos educacionais e sociais revelam-se, assim, ricos de informações ao pesquisador para o resgate do discurso pedagógico, das práticas educacionais, do cotidiano escolar, do grau de submissão dos professores aos programas e às instruções oficiais, da ideologia oficial e do corpo docente, da força de inovação e continuidade que representa, das contradições do discurso.

1. A Revista do Ensino/RS: espaço de formação e atualização do professor primário (1951-1978)

Em setembro de 1951, como iniciativa das professoras primárias Maria de Lourdes Gastal, Gilda Garcia Bastos e Abigail Teixeira, é criada a Revista do Ensino4, com a intenção de não só “preencher o lugar vazio junto ao professor primário, estagiário ou não”, como também de aspirar a que a “educadora jovem e idealista” encontrasse nas suas páginas a solução para “resolver os árduos, porém sublimes, problemas de seu mister”. Nesse sentido, a revista volta-se preponderantemente a orientar a professora primária rio-grandense, divulgando diretrizes técnico-pedagógicas, material didático e legislação relativa ao ensino.

O editorial do primeiro número, intitulado “Grandes Sonhos”, reforça os objetivos do novo projeto de “servir à coletividade divulgando experiências e saber comum ao magistério”. Com o apoio institucional da SEC/RS e, por um breve período, como propriedade privada da professora Maria de Lourdes Gastal (maio a novembro de 1956), em 11 de dezembro de 1956 a revista passa a ser uma publicação oficial, através do CPOE/RS, daSEC/RS (1943 – 1971)5.

Sobre as alterações que o periódico passou nos anos 1950, Anísio Teixeira assim se refere: “A Revista do Ensino era particular e hoje é editada pelo Estado Não se sente nenhuma diferença. Pública era ela antes, embora editada pela Livraria do Globo, e pública é hoje, embora editada pelo Estado. O público no Rio Grande do Sul não é o oficial, mas o que visa ao público, o que serve ao público...” (RE/RS, n.44, p.2, maio 1957).

Sob a supervisão técnica do CPOE/RS6, a revista divulga as orientações pedagógicas desse centro de pesquisa, sendo um instrumento técnico-pedagógico de atualização permanente do magistério, elevando o nível qualitativo dos profissionais da educação. Destinava-se a apoiar as atividades da professora de jardim de infância e do professor primário, abordando os conteúdos das diferentes disciplinas que compunham o currículo do ensino elementar, posteriormente do 1 grau. A partir de 1971, com a reforma do ensino pela Lei n5692, a revista amplia sua área de abrangência para os outros níveis de ensino.

Em 1964, a diretora da revista Maria de Lourdes Gastal e sua equipe defendem a tese da “imensa contribuição da imprensa” como “aliada do professor na sistematização do ensino”, com base nos seguintes argumentos: “a insuficiência do curso de formação de professores; a dificuldade do professor para frequentar cursos de especialização; o custo elevado dos livros, bem como a dificuldade de tradução de livros estrangeiros; a superação em curto prazo do livro didático pela descoberta de novas técnicas de ensino; a carência de ofertas de cursos de atualização do professor. Nessa perspectiva, as revistas técnico-pedagógicas seriam um recurso viável e indispensável para a atualização e aprimoramento do professor, por apresentar grande variedade de assuntos em suas diversas seções e as diretrizes que regem as mais modernas técnicas de ensino; por conter notícias e comentários sobre cursos de atualização; por traduzir e adaptar artigos estrangeiros de interesse; pelas sugestões de atividades práticas apresentadas de maneira clara e convincente; pela oferta de material didático em forma de cartazes e painéis, auxílio valioso e de grande utilidade; pelas ilustrações apresentadas que facilitam a leitura e a compreensão dos conteúdos;pelo custo realmente acessível, dentro, portanto, das possibilidades econômicas do magistério; preenchendo as necessidades dos professor formado como do aluno da escola normal (Bastos, 1997, p.47).

Em seus vinte e seis anos, publicou cento e setenta (170) números, com oito a dez números anuais, com uma média de 80 (oitenta) páginas de material informativo didático-pedagógico. Com uma tiragem inicial de 5.000 exemplares, atingiu a marca de 50.000 exemplares, no início da década de 1960. A tiragem é um significativo indicador da repercussão da revista no meio educacional -regional, nacional e internacional-, muitas vezes único meio de (in) formação à disposição do professor e de utilização na sua prática cotidiana. A revista publica um suplemento didático descartável com orientação para o seu aproveitamento como recurso visual em sala de aula (Bastos, 1997).

O periódico volta-se a dar orientação didático-pedagógica aos professores em exercício e em formação, através de sugestões de planos de aula, atividades práticas, trabalhos manuais, música, poesias, sugestões de recursos didáticos. Procura auxiliar o professor no dia a dia da sala de aula. Mas também, preocupava-se em subsidiá-los com textos mais teóricos, de fundamentos da educação, artigos sobre psicologia, higiene escolar, história da educação, administração escolar, sociologia da educação e outros.

Uma preocupação constante da equipe editorial foi com a valorização “simbólica” da profissão docente através de poesias e poemas, mensagens, artigos, pensamentos, distribuídos por suas páginas, enaltecendo a prática educativa e prescrevendo um modelo de atitudes e condutas consideradas exemplares.

O projeto editorial faz uso de diferentes estratégias e mecanismos de persuasão de seu leitor, tecendo e homogeneizando o pensar de uma categoria profissional; perpetuando alguns sentidos em detrimento de outros e produzindo um discurso de construção do leitor-ideal. Analisar esse imenso e significativo corpus documental exige que o pesquisador privilegie olhares particulares para determinados eixos: temas; sessões; artigos teóricos; iconografia; disciplinas escolares; a relação com o leitor, através da correspondência; poesias, poemas, músicas. Nesta perspectiva, selecionamos algumas estratégias e dispositivos adotados, como exemplos paradigmáticos que contribuíram para a formação do leitor docente e do professor em formação.

1.1 Falam os educadores brasileiros7

Essa seção esteve presente do número 20 de março de 1954 ao número 100 de 1965, perfazendo 43 entrevistas com educadores, técnicos, administradores, considerados “mestres experientes”, com a intenção de “sentir com mais objetividade os problemas educacionais da atualidade (...), sondar o que já se fez no Brasil e as possibilidades que temos para atender melhor às necessidades de formação e reajustamento de nossa gente;abrir novos rumos e ter expressiva significação na felicidade do povo; balanço das nossas incertezas, dificuldades, perspectivas da educação brasileira” (RE/RS, ano II, n.25, p.57, set.1954).

Com essa missão, a revista pretendia ser o porta-voz da realidade educacional brasileira idealizada, a partir do contato direto com grandes nomes da nossa atualidade educacional, a fim de aproximá-los dos professores-leitores. A opinião dos entrevistados reforça o papel pedagógico do periódico “servir à instrução primária, para o aperfeiçoamento do ensino, tornar mais fácil a tarefa do professor, orientá-lo cientificamente dentro da classe, promover o intercâmbio cultural, condensar noções teóricas e apresentar farto material de aplicação prática” (RE/RS, ano II, n.21, p.32, abr.1954).

O impresso buscava dar status ao saber pedagógico como campo de conhecimento científico e, ao mesmo tempo, dar uma dimensão técnica e instrumental ao cotidiano escolar. Paralelo a isso, a seção constituiu-se, também, em um conjunto de falas relativas às normas e valores de conduta profissional, como forma de controle da profissão docente. Esta estratégia se fazia necessária como parte do projeto de conformação do grande contingente de profissionais da educação, ampliado a partir da expansão do sistema escolar na década de 1950 e 1960.

A seção “Falam os educadores Brasileiros” fez parte do projeto editorial periódico como “relatos de poder”, no campo educacional, que se constrói no cruzamento do discurso e da apologia para criar as imagens de memória social dos professores, nisso reside o “poder do relato” (Catani, 1995, p.73). Dessa forma, as falas são uma estratégia discursiva de mistificação do conhecimento e da mitificação daqueles que “conhecem”, produzindo uma maneira de pensar generalizável que aliena o sujeito de si e de seus valores próprios, ao mesmo tempo que a confirma e a legitima pela perpetuação do próprio discurso (Bastos, 1997, p.74).

1.2 Retratando mestres: a imagem espelhada8

A seção “Retratando Mestres” esteve presente em 34 números da revista, de setembro de 1951 a outubro de 1955, como um espaço à disposição de professores e alunos que desejassem homenagear um mestre, o que significava um reconhecimento, uma gratidão, um “prêmio à imortalidade”, a todo professor que "modestamente, embora orientado por princípios de honestidade e de atuação sadia e inteligente, soube perlustrar fiel ao seu próprio ideal, a senda por vezes acidentada e difícil de sua existência”. As biografias, ao darem destaque a um “exemplo digno de Mestre” compõem um campo discursivo homogeneizante aplicado ao indivíduo e a todo corpo docente. Nesses termos, destacando o "magistério contemporâneo, cuja abnegação e altruísmo o tornam digno de tão estoica antecessora”, o discurso exalta o sacrifício como virtude e resgata aspectos da história da educação rio-grandense e brasileira, na valorização da educação - "sem educação jamais o Brasil irá avante. Nela se baseiam nossas esperanças maiores. Daí o valor das escolas públicas, (...)daí a veneração que é devida aos professores, daí o grande valor da instrução”.

Com essa intenção, situa‑se a seção que focaliza "figuras singulares do magistério rio‑grandense ‑ exemplo digno de apreço e imitação às novas gerações”, tirando, assim, do "imerecido esquecimento os heróis anônimos” da educação do Estado. A partir dos modelos de mestres ou dos mestres‑modelos retratados, a Revista visa influenciar seu público‑leitor, acreditando no princípio de "eficácia que emana do conhecimento biográfico de todo aquele cuja vida equivale a uma bela e autêntica lição de probidade pessoal, de competência profissional e de leais serviços prestados em benefício de seus semelhantes”, dentro de uma lógica que perpassa toda a sociedade e os espaços institucionais de exercício e de formação docente.

A homenagem aos “profissionais de têmpera” procurava influenciar, orientar e guiar a prática cotidiana do leitor através da exaltação de atitudes, comportamentos, valores morais e éticos, considerados adequados ao perfil do docente. Segundo a apresentação, esta “biografia oferece a feliz oportunidade de prestarmos nossa homenagem aos insignes mestres que, pelo devotamento e dedicação, só podem servir de exemplo às novas gerações”.

As biografias dos mestres homenageados apresentam um farto e significativo material para a história da educação, por destacar aspectos da vida familiar, da trajetória escolar e profissional, excertos de trabalhos, fotografias, possibilitando ao pesquisador identificar dados do sistema de ensino, do cotidiano escolar, trajetórias escolares e profissionais dos retratados, excertos de produção intelectual, publicações, práticas didáticas, a história das escolas em que atuaram. Também permitem analisar o universo discursivo do professor biógrafo, tanto no que é salientado como relevante no perfil do ser professor, como no que é omitido para a constituição do imaginário docente, configurado em um determinado regime de verdade. Assim, possibilitam perceber como circulam os discursos de formação da identidade do professor, isto é, a “historicidade do processo discursivo que idealiza a figura do professor”, procurando entender a constituição da subjetividade docente como uma produção da sociedade moderna, através de suas práticas de dominação e de jogos estratégicos de liberdade.

Com a composição dos retratos, a partir da origem familiar, vida escolar, trajetória profissional, os professores‑biógrafos pretendiam passar ao leitor da Revista do Ensino uma imagem do que deveria ser entendido ser docente, como exemplo e estímulo à prática cotidiana escolar ‑"folheando as páginas de nosso passado de estudos, encontramos aureoladas de glória, a lembrança dos mestres queridos, dessas sombras benfazejas que foram o amparo da mão amiga estendida a cada vez que tropeçamos...”. Dessa forma, o professor‑leitor sua identidade‑máscara, no espelho de um estatuto moral modelador do caráter e das virtudes. A missão educacional, refletida no espelho, sutilmente sugeria não só um desprendimento material do ser humano, como a negação dos interesses pessoais de qualquer ordem ou natureza.

O discurso da revista transmite ao professor‑leitor uma visão exaltada da profissão docente, destacando valores dominantes que passavam pela postura pessoal e social, idolatrada e perfeccionada pelos professores‑biógrafos. Dirige gestos, rege comportamentos, opera em processos de sujeição de corpos e mentes. Dessa forma, justificava na posse de um capital cultural e moral a destituição de condições materiais de sustentação real. Buscava direcionar e disciplinar tanto a vida privada como profissional do professor, que deveria estar exclusivamente voltado à entrega e abnegação à profissão, ou seja, como um missionário da cruzada educacional, cuja recompensa as bênçãos do céu caberia. Esta visão missionária era fortemente arraigada, tanto na dimensão de grandiosidade, (desapego de valores terrenos) quanto na de abnegação estoica.

O estudo da seção “Retratando Mestres”, ao resgatar uma produção discursiva, procurou compreender como, historicamente, certas representações sociais se constituíram em regimes de verdade, com vistas a moldar a identidade do professor. A análise da idealização do professor na revista busca desvelar as relações que interligam o discurso pedagógico e o discurso ideológico, e compreender como os saberes são constituídos nas relações de poder e de dominação. Assim, o professor de que nos fala não reflete ou explica o professor que realmente existiu: não são necessariamente figuras coincidentes –“a imagem perpassada pelo discurso não espelha a realidade, mas assume a função de espelho na qual o professor deveria buscar sua imagem” (Bastos; Colla, 2005, p. 40).

Assim, a análise da historicidade do discurso da revista permite conhecer a retórica de conformação do ser docente, pelo desvelamento do discurso político-ideológico embutido no discurso técnico-pedagógico. Nessa perspectiva, o passado se faz presente, pois possibilita refletir sobre a identidade social forjada e herdada e operar um trabalho de reconstrução histórica da sua formação profissional e prática cotidiana (Bastos, 1997, p.75)9.

1.3.A iconografia: dispositivo de orientação didático-pedagógica10

A iconografia foi disponibilizada para todas as disciplinas do currículo da escola primária, assim como as orientações para sua exploração em sala de aula, para confecção de quadros murais, para a utilização de recursos audiovisuais. O índice cumulativo por assuntos elege “gravuras e estampas”, como uma categoria de classificação do conteúdo, subdividida em: nossas capas, calendário escolar, ciências naturais, ciências sociais, desenho, geografia do Brasil, geografia exterior, higiene, história do Brasil, linguagem, música. O uso intensivo da imagem em sala de aula, segundo Feldman (2004) reside em razões de ordem econômica, de praticidade e de maior ajuste ao funcionamento adotado no mecanismo escolar. Acrescenta, também, a necessidade de simplificação da realidade para facilitar a atividade escolar, como um texto, fornece informações, apoia a informação de outro tipo ou organiza a informação.

O intenso estímulo à iconografia em sala de aula reflete a materialização do discurso didático-pedagógico do CPOE/RS, tendo por fundamento a escola renovada – “a implantação dos métodos ativos; a centralidade da criança no processo de aprendizagem; a escola como espaço de exercício da criatividade; o desenvolvimento da autodisciplina, da liberdade individual, da consciência moral dos educandos, desenvolvimento do espírito crítico; compreensão da realidade”. Essas foram as metas do Centro visando acompanhar a “civilização em mudança” e os desafios da vida em uma sociedade democrática (Garcia; Peres, 2002, p. 102).

O sucesso da revista parece ter residido na característica de fornecer farto material didático e ilustrativo ao professor, junto com orientações metodológicas, conforme podemos depreender desta fala:

“... o motivo maior do interesse que a Revista desperta, no Brasil, é o cunho prático e útil de suas seções, fornecendo ao professorado, periodicamente soma apreciável de orientação, matéria de aula e elementos para trabalhos didáticos” (Antonio d’Ávila/SP. Revista do Ensino, n° 41, out/nov. 1956. p. 2).

A esmerada produção gráfica começava por suas capas, que, em geral, reproduziam fotos do cotidiano escolar e de eventos oficiais. Com uma intenção didática e estética, traduzidas em legendas, que informavam e ilustravam representações das culturas escolares11 do período. As capas reproduzem eventos ocorridos em jardins de infância e em grupos escolares, em diferentes atividades, especialmente aquelas identificadas com uma escola ativa: aula de música, desenho, arte, canto, dança, biblioteca, teatro, banda.

As imagens impressas nas capas estão ligadas organicamente ao todo, constituindo uma cultura do impresso. Expressam a representação de um modelo de escola e de ensino, e buscam “conquistar a adesão de quem olha e, mais ou melhor do que o texto ao qual está associada, produzir persuasão e crença (Chartier, 1998, p.16).

Dessa forma, também as contracapas foram espaços privilegiados de divulgação e propaganda de livros destinados ao ensino primário. Isso permitiu ampliar a ação formativa didático-pedagógica da professora primária, com indicação de leituras voltadas tanto para a profissão como para a vida pessoal - como mãe e dona de casa. Como também a normalista era a leitora preferencial da revista, a publicidade destaca livros destinados a esse nível de ensino. Visando ampliar o universo de leitura das professoras e das normalistas, a Editora Tabajara faz o destaque “a Nova Pedagogia exige livros especiais para os cursos primário e normal”, com o complemento “autores consagrados no ensino brasileiro elaboraram”. Também lista as coleções indicadas para o ensino primário, pré-primário normal, admissão ao ginásio e matemática, com os respectivos manuais do professor.

A contracapa externa serviu principalmente para divulgação dos créditos, sistema de assinaturas e endereço da revista. Com o destaque dirigido “Aos nossos leitores” e “Alerta ao professor”, vários números chamam a atenção do leitor para manter em dia o pagamento e a renovação de sua assinatura para continuar recebendo pontualmente a revista. Cabe destacar a chamada da contracapa – “Você quer obter renda? Candidate-se a agente da Revista do Ensino e das Edições Tabajara em sua localidade ou zona”. Consciente da baixa remuneração do professor, a revista sinalizava com a possibilidade de ter um adicional de renda vinculado ao seu fazer docente. Também várias seções da revista se preocupavam em fornecer material didático iconográfico para uso do professor e do aluno. Para o aluno, a revista fornecia desenhos “para os pequenos colorirem”, em tamanho de página inteira. Para o professor, a variedade era muito maior, várias seções visavam fornecer material gráfico para decoração da sala de aula e/ou para exploração didática. Por exemplo, o Calendário do Mês e o calendário perpétuo para sala de aula.

Outro dispositivo de orientação do professor foi o encarte de suplementos didáticos ou quadros murais, encarte mensal destacável, com orientação para o seu aproveitamento como recurso didático em sala de aula, nas várias disciplinas do currículo do ensino primário e para motivar a linguagem.

Os quadros, para uso em sala de aula, são desenhos coloridos, em tamanho de 44 cm por 37 cm, com perfeito acabamento gráfico, que contemplam temas específicos, organizados em séries de gravuras: zoologia, linguagem, história. Em cada quadro uma frase ilustrativa, para melhor fixação da cena. Bittencourt (2002) afirma que as vinhetas ou legendas colocadas em cada ilustração indicavam o que o aluno deveria observar e reforçava a ideia contida no texto. A partir de 1960, a equipe da revista modifica a apresentação gráfica do material didático suplementar. O tamanho passa a ser bem maior (80cm x 107 cm), traz as orientações ao professor no próprio suplemento (atrás), apresenta os temas das disciplinas do currículo primário - linguagem, matemática, ciências naturais, história e geografia - em um único quadro, com legendas.

As orientações didático-pedagógicas do “Suplemento do Mês” são bastante extensas e completas, trazendo, inclusive, exercícios e perguntas para a professora aplicar com seus alunos. O suplemento didático também é complementado com outros textos no corpo da revista. Ao final de cada orientação, há uma nota em que são sugeridas as alterações para a adaptação da tarefa para outras séries que não a indicada, com a ressalva de que todas as professoras poderão “desenvolver a atividade de acordo com as necessidades de sua classe”. Feldman (2004) destaca a função educativa das imagens na sala de aula: representam o mundo segundo padrões relacionados com a moralidade, a praticidade e a pátria; representam a realidade de forma estereotipada e idealizada, ordenando-o e simplificando-o; impõem uma ordem coincidente com o padrão do currículo.

Para Halbwachs (1925, p. 281), “não há ideias sem imagens: mais precisamente, ideia e imagem não designam dois elementos – um social e outro individual – de nossos estados de consciência, mas dois pontos de vista de onde a sociedade pode examinar os objetos, ao mesmo tempo em que os situa no conjunto de suas noções, ou em sua vida e sua história” (apud Jodolet, 2001, p.39). Nesse sentido, o potencial da iconográfico da revista permite entender a conformação de discursos e representações sociais, integrada nos processos econômicos e sociais (Lima; Carvalho, 2003). Como atividade educacional, a leitura de imagens desenvolve o olhar crítico, ensina a aprender a ver o mundo e a organizar a experiência, produzindo sentido às imagens (Martelli, 2003).

2. A revista infantil Cacique (1954-1963): divertir, educar, formar

Em 1956, a Revista do Ensino/RS publica o artigo “Precisamos de melhores revistas para as crianças”, da professora EdissaZulmires de Campos (São Paulo), o qual lista as revistas mais lidas pelos meninos: e pelas meninas. Considera leitura perniciosa principalmente, pelo conteúdo: Fantasma, Gibi, Rock Lane, Zorro, Globo Juvenil, Guri, Aí Mocinho, Durango Kid, Capitão Marvel, Grande Hotel, Rosalinda, Super-Homem, Gilda, Biriba, Cavaleiro Negro, Terror Negro, Dom Xicote, por explorarem temas como: crime, assassinato, roubo, falsificação, ambição, terror, vingança, ódio, assalto, rapto, espionagem e anarquismo. Para a autora, “as revistinhas aceitáveis” eram Pato Donald, Branca de Neve, Vida Infantil, Sezinho, Tico-Tico, Mindinho, Cirandinha, Pinduca e outras. Conclui que as revistas infantis devem “constituir motivação para o desenvolvimento do gosto pela literatura e obras de verdadeiro sentido educativo” (RE/RS, n.41, p. 48-57, out./nov., 1956).

Com a constatação dessa realidade, as autoridades educacionais decidem publicar uma revista para o público infanto-juvenil, com a proposta de divertir, educar e formar, pela ênfase na literatura (fábulas, contos, poesias, histórias, lendas), na divulgação de conhecimentos variados de história, de arte, música, geografia, ciência; nas curiosidades científicas, buscando o divertimento e a “humanização” do seu leitor, a partir de desafios que o levassem a pensar. Com essa intenção é criada a revista Cacique, publicada no período de abril de 1954 a 1963, cujas seções estavam em consonância com esses objetivos e expressava os princípios, valores, ideais e conceitos que constituíram o projeto educacional rio-grandense voltado para o público infanto-juvenil: “divertir – fazendo-o rir; educar – levando-o a pensar e a se formar para as “coisas boas e sadias da vida”, em oposição aos “gibis” da época “considerados perniciosos à formação infantil e juvenil” (Campuoco,1981, p. 10).12

Cacique era feita por professores para as crianças e não se limitava à sua publicação; realizava, também, um programa radiofônico diário, chamado “Teatrinho Cacique”, com adaptação de contos, como o “Mágico de Oz”, “Espantalho”, que eram publicados no periódico.

A revista, em sua primeira fase, foi editada pela Livraria do Globo, em formato pequeno (22 x 16 cm), sempre com 32 páginas. Apresentava uma capa diferente em cada número, criação da equipe redacional, e na contracapa uma seção intitulada “A História da Capa”, explicando o motivo da ilustração. Na segunda fase da revista, de 1961 a1963, a equipe editorial retomou em parte a ideia da seção “História da Capa”, com a denominação “Conversa com o Leitor”, também na contracapa, espécie de editorial sem assinatura que, de certa forma, desenvolvia a mensagem expressa pela capa sem contar uma história.

O conhecimento do universo discursivo da revista infantil, através da análise da seção “História da Capa”, permite verificar a visão de sociedade e as concepções morais e educativas transmitidas para “formação harmoniosa da personalidade, desenvolvimento de hábitos de cooperação e atitudes de solidariedade, atendendo as exigências higiênico-pedagógicas desse gênero para a garotada gaúcha” (RS/SEC. Decreto nº 7201, de agosto de 1956).

Nesta perspectiva, Cacique procurava veicular uma visão de mundo em harmonia, sem conflitos sociais e individuais, em que valores como amizade, amor, família, Pátria, respeito, solidariedade, cooperação, conhecimento, ciência, progresso, estudo, eram constantemente reforçados através das histórias, que buscavam divertir, educar e formar o leitor para “crescer para a Verdade e para o Bem”. O leitor era tratado como um adulto em miniatura, para o qual era projetada uma “imagem ideal da dourada infância”, ou seja, “um espaço mágico alijado das asperezas e conflitos diários” (Dorfmann; Mattelart, 1980, p. 22).

A formação moral do leitor é trabalhada como uma prescrição, um “dever ser”, um modelo a ser seguido, disciplinando atitudes, condutas e posturas sociais e individuais. A partir desta visão, a revista procurava mostrar ao leitor que sua participação e atitude adequada são fundamentais para construção de uma vida melhor, exaltando esforço e empenho de cada um apara superação de qualquer dificuldade.

Para Dorfmann e Mattelart (1980), a literatura infantil é um dos mecanismos que melhores possibilidades oferecem ao estudo dos “disfarces e verdades do homem contemporâneo”; a análise do imaginário do mundo adulto traduzido para o mundo infantil, carregado de “aspirações e concepções angelicais da vida” (p. 22). A leitura que o público infanto-juvenil faz dos “gibis” dirige sua leitura de mundo – “a suspensão temporária do real que patrocinam, iluminam e fecundam o retorno ao real” (Lajolo, 1993, p. 7).

Como leitura de formação13, Cacique afirma valores e regras sociais utilizados na tentativa de validar instituições, costumes e crenças, com ênfase em um “moralismo conformativo (Souza, 2001, p.148). A formação do homem para o cumprimento das normas/regras sociais destina-se a alcançar a harmonia individual e social.

Tomando por base a seção “História da Capa”, a cargo de Dirceu A. Chiesa, ao longo dos 55 números em que foi publicada, analisou-se as ideias, estereótipos e modelos que são enfatizados em suas temáticas, veiculando uma imagem de sociedade e indivíduo modelar, preparando-o para a “verdade” e para o “bem”, “embelezando sua alma e seu pensamento”. A leitura14 e análise desta seção se apoiam na linha ideológica da equipe redacional da revista, expressa no “Código da Revista Infantil – Cacique”.

As capas eram desenhadas com riqueza de detalhes e cores, expressando sempre uma cena simple e completa. “Olhar” simplesmente a capa permitia ao leitor identificar a mensagem codificada na “História da Capa” em “linguagem leve, acessível e interessante”.A contracapa – lugar destinado à “História da Capa” – reproduzia em um pequeno quadro, o alto da página, a capa da Revista, deixando o resto do espaço para a história, com exceção do rodapé, que se destinava aos dados de identificação da Revista. A maioria das histórias não tinha título, excetuando-se “Adoração dos Reis Magos” (nº 9, 1955) e “O Pai da Aviação” (nº 30, set. 1956). Esta característica poderia ser resultante do fato que a própria capa titulava a história ou decorria de uma intenção do autor em deixar ao leitor espaço para sua imaginação.A intenção de traduzir à garotada o que eles viam na capa direcionava o seu olhar para aquilo que deveria ser percebido/lido, isto é, encaminhava o leitor para uma via única de leitura da imagem veiculada. Ampliando esta postura para a realidade social maior, procurava mostrar uma verdade.

Todas as histórias buscavam transmitir uma lição de vida, uma mensagem positiva, com modelos de conduta e normas sociais, buscando a educação moral pela “formação harmoniosa da personalidade da criança, bem como para o cultivo de hábitos de cooperação e atitudes de solidariedade” (Decreto nº 7201, de 23 de agosto de 1956). Nesta perspectiva, temáticas voltadas às festas religiosas e cívicas, ao trabalho, ao lazer, divulgavam valores como: amor, amizade, família, Pátria, respeito, trabalho, conhecimento, ciência, progresso.As histórias, em sua maioria, envolviam ações cometidas por personagens jovens, com idade entre 9 e 13 anos (idade do leitor-destinatário da revista), enfatizando a figura masculina, em maior número que a feminina, caracterizando-os por atributos identificados com o universo masculino, como coragem, bravura, heroísmo, tenacidade, bondade, perseverança.

Concluindo

Os periódicos constituem uma instância privilegiada para a apreensão dos modos de funcionamento do campo educacional, pois fazem circular informações sobre o trabalho pedagógico, o aperfeiçoamento das práticas docentes, o ensino específico das disciplinas, a organização dos sistemas, as reivindicações da categoria do magistério e outros temas que emergem do espaço profissional. Além disso, acompanhar o aparecimento e o ciclo de vida da imprensa periódica de educação e de ensino permite conhecer as lutas por legitimidade que se travam dentro do campo, e também analisar a participação dos agentes produtores do periódico na organização do sistema de ensino e na elaboração dos discursos que visam instaurar as práticas exemplares. É nesse sentido que se pode afirmar a dupla alternativa que os periódicos de educação e ensino oferecem, simultaneamente, como fontes ou núcleos informativos para a compreensão dos discursos, das relações e das práticas,que permitem explicar modalidades de funcionamento do campo educacional (Catani; Bastos, 1997).

Os exemplos apresentados, da longa trajetória da Revista do Ensino/RS, de 1951 a 197815,objetivaram evidenciar as múltiplas possibilidades que os impressos de educação e ensino permitem para a escrita da história da educação e da circulação de ideias e práticas educativas e escolares, em determinada época e contexto.

Os estudos sobre as seções da Revista do Ensino e a pesquisa com a revista Cacique, ambas iniciativas de professoras primárias atuando na Secretaria de Educação do Estado, evidenciaram como estes dispositivos de direção moral, intelectual e de subjetivação de docentes e discentes operaram nas décadas de 1950 a 1970.

Muitas outras possiblidades de pesquisa com imprensa são possíveis. Juri Meda (2011) chama a atençãoda comunidade científica para pesquisas que tomam como objeto e sujeito a imprensa periódica voltada para a infância e a juventude. Salienta que esse corpus documental permite ser analisado de diferentes perspectivas: desde a história da imprensa à história das editoras; da história da ilustração à história do processo cultural e da mídia; da história da educação à história da literatura para a infância e da leitura. Enfim, a história da produção do periódico, de quem o produz, a quem se destina, características internas e externas, relação com a comunidade de leitores (memórias, correspondências, etc.), razão social e cultural de circulação e ciclo de vida, função educativa e moralizante, modelo educativo destinado à infância. Compreende uma variedade de publicações – revistas recreativas, revistas em quadrinhos, suplementos voltados às crianças em periódicos diários, imprensa escolar, boletins de associações de jovens ou grêmios estudantis, ilustradas ou não -, mas todas com finalidade educativa, recreativa, socializante e/ou de propaganda, para públicos de diferentes idades e gênero.

Cabe assinalar, ainda, que há um caleidoscópio de distintas abordagens teóricas e metodológicas, com esse amplo e diversificado corpus documental. Por tudo isso, acreditamos que é um estímulo para o avanço das pesquisas com imprensa periódica, especialmente de educação e ensino, para diferentes públicos leitores e de distintos setores sociais e ideológicos.

 


Notas

1 Utilizo a expressão por ser mais abrangente em termos de corpus documental. Mas muitos pesquisadores adotam “imprensa pedagógica”, como por exemploHERNANDEZ DIAZ (2013).

2 Sobre impressos de estudantes de diferentes níveis de ensino, ver BASTOS (2013), Hernandez Dias (2015); sobre imprensa infanto-juvenil, ver MEDA et alii (2011-2013).

3 Desde os anos 1990, tenho realizado diferentes estudos e orientado pesquisas tendo como objeto a Revista do Ensino/RS. Sobre, ver: Bastos (2013;2007 a e b;2006 a, b e c; 2005 a e b; 2004; 2002; 1998, 1997); Ferraz (2010); Bolsistas de Iniciação Científica: Carolina Severo, Gabriela Castro e Júlia Freitas.

4 Com o mesmo título, circulou no período de 1939 a 1942, mas com objetivos diversos, apresentação gráfica e equipe editorial. Sobre, ver Bastos (2005).

5 Sobre o CPOE/RS, ver Quadros (2005; 2006); Peres (2000).

6 O CPOE/RS também edita o Boletim do CPOE, publicado a cada dois anos, de 1947-1966, com orientações, pesquisas, legislação, bibliografia, provas escolares, que resultaram de trabalhos no Centro.

7 Sobre, ver Bastos (1997)

8 Sobre, ver Bastos &Colla (2004)

9 Interessante assinalar a recente obra de Ascenzi&Sani (2016), que analisa a construção de identidades docentes edo grupo que a produz, a partir de necrológicos publicados na imprensa de associações docentes.

10Sobre, ver Bastos etall (2007)

11Sobre, ver VIÑAO FRAGO (2002).

12 Em 1955, o CPOE/RS cria a “Comissão Especial de Estudos e Classificação de Publicações Periódicas” (Portaria 3.135, de 28 de junho de 1955). À comissão cabia analisar e emitir pareceres sobre publicações infanto-juvenise, congregar esforços no sentido repressivo da imprensa malsã e, principalmente, na orientação dos editores no sentido do saneamento das publicações, em geral, e daquelas destinadas à infância, em particular. Entre 1957 e 1959, um total de 897 publicações foram recebidas para exame (Quadros, 2006, p.254 e 256).

13Romance de educação ou de formação, para Bakhtin (1992), é toda a obra em que a “vida do herói e seu caráter se tornam de uma grandeza variável” (p. 235), objetivando com sua leitura a formação (transformação) do homem, do leitor. O romance de educação caracteriza-se por apresentar o herói/personagem em processo de aprendizagem/de formação. Leituras de formação ou aprendizagem são aquelas em que “as instituições sociais como a família, a escola, a igreja, a fábrica, o hospital, pelas quais transita o herói da obra, procuram influenciá-lo, moldá-lo, direcioná-lo, segundo seus valores e normas específicas” (FREITAG, 1994, p.68).

14 “A leitura há de ser sempre doutrinária, pois a natureza do assunto está expressa na doutrina e na política a que se acha associada. A verdade do assunto é interior à verdade da doutrina, isto é, circulam ambas pelos mesmos caminhos” (Ferreira, 1971).

15 A revista voltou a ser publicada com outras características em 1989, com três números somente. Outra tentativa ocorre em 1992, mas também com curta duração. Sobre, ver Bastos (2005).

 

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Recibido: 17 de mayo de 2015
Aceptado: 1 de junio de 2015
Publicado: 18 de noviembre de 2016


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